"Porque aceitamos para sistemas críticos digitais aquilo que nunca aceitaríamos para uma ponte, um hospital ou um edifício público?"
Vou contar-vos uma história.
Era uma vez um país que decidiu construir uma residência universitária para os estudantes do ensino superior.
Como a inauguração era politicamente importante, decidiu-se avançar rapidamente. O tempo era curto, por isso, elaborou-se uma lista mínima de requisitos e a obra avançou, sem qualquer validação prévia do projeto e das capacidades técnicas do construtor. Não havia margem para adiamentos.
Chegado o dia da abertura, os alunos começaram a chegar.
As portas não funcionavam. Quando finalmente abriram, descobriu-se que os elevadores estavam avariados. Alguns estudantes tinham quartos trocados. Outros encontravam os seus pertences em locais errados. Havia informação contraditória, filas, reclamações e uma enorme confusão.
Os trabalhadores da residência esforçavam-se por resolver os problemas, mas não conseguiam responder a tudo ao mesmo tempo.
Os alunos perderam a confiança. Os pais ficaram indignados. A comunicação social exigiu explicações.
E todos faziam as mesmas perguntas:
Quem aprovou isto?
Quem verificou que estava pronto?
Quem autorizou a abertura?
Como foi possível inaugurar uma infraestrutura nestas condições?
Naturalmente, esta história parece absurda. Nenhum país desenvolvido aceitaria que uma infraestrutura desta natureza fosse construída e colocada em funcionamento sem planeamento, testes, validação e responsabilização adequados.
Esperem! Há um detalhe nesta história. A residência universitária nunca existiu.
Substituam a residência por um sistema digital crítico.
Substituam os elevadores por plataformas informáticas.
Substituam os quartos por dados.
Substituam os pertences por informação essencial para a vida dos alunos.
E a história deixa imediatamente de parecer absurda. Passa a parecer normal. Perigosamente normal.
Hoje aceitamos a ideia de que a transformação digital traz sempre falhas, atrasos, problemas e correções de emergência. Dizemos que faz parte do processo. Que são dores de crescimento! Que a tecnologia é complexa!
Mas porque aceitamos para sistemas críticos digitais aquilo que nunca aceitaríamos para uma ponte, um hospital ou um edifício público?
O problema não é a digitalização.
O problema é aceitarmos que sistemas dos quais dependem milhares de cidadãos possam entrar em funcionamento sem o mesmo rigor, validação e responsabilização que exigimos em qualquer outra área da engenharia.
Talvez tenha chegado o momento de deixar de perguntar porque falhou a tecnologia.
E começar a perguntar porque continuamos a dispensar a engenharia.