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Porque aceitamos que os sistemas digitais falhem?

João Oliveira Vogal do Conselho do Colégio de Engenharia Informática da Ordem dos Engenheiros

22 Jul 2026
Porque aceitamos que os sistemas digitais falhem?
"Porque aceitamos para sistemas críticos digitais aquilo que nunca aceitaríamos para uma ponte, um hospital ou um edifício público?"

Vou contar-vos uma história.

Era uma vez um país que decidiu construir uma residência universitária para os estudantes do ensino superior.

Como a inauguração era politicamente importante, decidiu-se avançar rapidamente. O tempo era curto, por isso, elaborou-se uma lista mínima de requisitos e a obra avançou, sem qualquer validação prévia do projeto e das capacidades técnicas do construtor. Não havia margem para adiamentos.

Chegado o dia da abertura, os alunos começaram a chegar.

As portas não funcionavam. Quando finalmente abriram, descobriu-se que os elevadores estavam avariados. Alguns estudantes tinham quartos trocados. Outros encontravam os seus pertences em locais errados. Havia informação contraditória, filas, reclamações e uma enorme confusão.

Os trabalhadores da residência esforçavam-se por resolver os problemas, mas não conseguiam responder a tudo ao mesmo tempo.

Os alunos perderam a confiança. Os pais ficaram indignados. A comunicação social exigiu explicações.

E todos faziam as mesmas perguntas:

Quem aprovou isto?

Quem verificou que estava pronto?

Quem autorizou a abertura?

Como foi possível inaugurar uma infraestrutura nestas condições?

Naturalmente, esta história parece absurda. Nenhum país desenvolvido aceitaria que uma infraestrutura desta natureza fosse construída e colocada em funcionamento sem planeamento, testes, validação e responsabilização adequados.

Esperem! Há um detalhe nesta história. A residência universitária nunca existiu.

Substituam a residência por um sistema digital crítico.

Substituam os elevadores por plataformas informáticas.

Substituam os quartos por dados.

Substituam os pertences por informação essencial para a vida dos alunos.

E a história deixa imediatamente de parecer absurda. Passa a parecer normal. Perigosamente normal.

Hoje aceitamos a ideia de que a transformação digital traz sempre falhas, atrasos, problemas e correções de emergência. Dizemos que faz parte do processo. Que são dores de crescimento! Que a tecnologia é complexa!

Mas porque aceitamos para sistemas críticos digitais aquilo que nunca aceitaríamos para uma ponte, um hospital ou um edifício público?

O problema não é a digitalização.

O problema é aceitarmos que sistemas dos quais dependem milhares de cidadãos possam entrar em funcionamento sem o mesmo rigor, validação e responsabilização que exigimos em qualquer outra área da engenharia.

Talvez tenha chegado o momento de deixar de perguntar porque falhou a tecnologia.

E começar a perguntar porque continuamos a dispensar a engenharia.
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